Dois anos de Austrália

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Por Zeca Moreira

Mês passado completei dois anos na Austrália (texto atrasado por conta da Mônica). Sem sombra de dúvidas, esse foi o período de maior aprendizado em toda minha vida. Sem querer ser piegas, mas já sendo, morar fora definitivamente muda quem você é. Não quero escrever um texto de auto-ajuda. Isso é muito chato. Mas ao escolher se mudar para outro país você aprende logo de cara como as coisas são cíclicas tanto emocionalmente quanto financeiramente. No Brasil também é assim? Em parte, sim, mas não como quando você opta por navegar por águas desconhecidas. Pode ser pior. Acredite.

Vamos à contextualização do que disse. Desde que cheguei aqui, escutei inúmeras histórias de pessoas que estavam com a vida toda arrumada e de uma hora para outra tiveram algum problema e recomeçaram do zero (novamente, pois quando chegamos aqui já temos que começar de lá). É nessa hora que muitos aventureiros desistem e resolvem voltar para o Brasil. Normalmente essas pessoas são aquelas que chegam na gringa achando que a vida do Brazuca no exterior são só as belezas postadas no Instagram e Facebook.

Comigo, obviamente, não foi diferente. Quando relatei aqui o que tinha visto e vivido no meu primeiro ano na Austrália as coisas já estavam encaminhadas (ao menos no sentido de trocar a lata de atum do almoço por um bife – de frango). Semanas depois disso perdi subitamente as minhas duas maiores fontes de renda. Estava prestes a recomeçar do zero, mais uma vez. Contudo, agora eu tinha uma vantagem. Já conhecia os atalhos para “viver” por essas bandas.

Uma temporada em Auschwitz – Um amigo falou sobre um tal de Uber. Li os pré-requisitos para prestar o serviço e vi que o carro que eu tinha não atendia as especificidades exigidas. Era hora de vender o Hulk: Minha Pajero, ano 99. Era necessário comprar um carro com menos de 10 anos de uso. Porém, eu usava o Hulk para levar e buscar brasileiros no aeroporto. Era minha terceira fonte de renda. Não pestanejei. Vendi o saudoso carro verde em UM dia por MIL dólares a mais do que paguei. Estava 100% desempregado e não podia usar o dinheiro do carro para nada, pois utilizaria para comprar o novo veículo conforme exigia o Uber.

Nesse período, arrumei emprego de garçom numa casa de eventos chique de Sydney. O que o local tinha de luxuoso ele tinha de insalubre. Nunca em toda minha vida vi um local tão desagradável para trabalhar. Os cozinheiros tratavam todos como lixo. Vi coisas que não conseguia acreditar. O cozinheiro gritava. Às vezes se aproximava do ouvido dos garçons e aos berros os chamava de imbecis, estúpidos e daí para baixo. Graças a Deus eles nunca gritaram comigo dessa forma. Mesmo assim eu não escapava das grosserias.

– O que você está carregando garçom- Esbravejou o cozinheiro mor enquanto eu pegava uma bandeja com almôndegas que seriam entregues no salão aos convidados de um casamento libanês.

– Meatballs (almôndega) – Respondi seco.

– Meatballs?!? Isso aí é carne amassada com queijo de cabras dos alpes suíços. Fico horas me matando na cozinha para preparar uma comida sofisticada e você chama isso de almondega? Repita agora o que você está carregando.

Respirei fundo e repeti a ladainha da cabra dos morros uivantes da Suíça.

Saí da cozinha, dei dois passos e fui abordado por um convidado que olhou para bandeja e disse.

– Oba, almôndega.

Pois bem, trabalhei nesse campo de concentração por longooos quatro meses enquanto preparava tudo para começar a rodar com o Uber. Ao fim deu tudo certo e em agosto de 2015 comprei o Gugu, um Holden Épica 2009 – Holden é o nome do Chevrolet aqui. O batismo do meu novo veículo foi uma singela homenagem ao saudoso quadro do grande artista Gugu Liberato, Taxi do Gugu.

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Jantar na hora do trabalho admirando a Harbour Bridge.

Uber, do sonho à realidade – Fazia algumas semanas que havia entregue toda papelada para começar a fazer o Uber. Estava na expectativa para saber se aquela seria realmente a salvação da lavoura conforme vinham me dizendo. Já estava no trem rumo ao campo de concentração (Doltone House) quando chequei meu email e BANG. WELCOME. Não contive a alegria. Dei um grito no trem. Mas como estava indo trabalhar, não poderia começar naquele dia. Não poderia, mas comecei…

Ao chegar na casa de festas, no briefing que rolava antes de todos os eventos, o gerente perguntou por umas quatro pessoas que estavam atrasadas. Começamos sem elas a trabalhar. Elas chegaram depois. Cerca de quatro horas se passaram, quando deu 22 hs o meu supervisor me chamou e disse.

– Pode ir embora. Agora já está mais tranquilo.

Quando você trabalha no exterior nesse tipo de emprego você é remunerado por hora. Logo, ser mandado para casa antes não significa folga. Significa menos grana.

– Pera aí, eu nunca atrasei. Sempre fui pontual e na hora de mandar alguém embora eu que tenho que ir? – Ponderei

– Sim. – Respondeu o indiano.

Sai tão revoltado com a situação que resolvi começar a rodar com meu Uber naquele dia. A raiva me ajudou muito, pois não tive tempo de ter medo da empreitada que estava para começar. Por mais que eu dirija em Sydney desde meu terceiro mês aqui (lembrando que aqui se dirige do lado contrário da pista, a chamada mão inglesa) NADA se compara a ter que dirigir várias horas por dia para diversos locais que você nunca foi.

Sydney é cheia de túneis e pontes. Se você perde uma saída dentro de um túnel pode significar uma hora a mais no trânsito e um passageiro muito insatisfeito. E o GPS, pergunta o gênio? GPS não funciona debaixo da terra e no centro da cidade, local com maior número de chamadas, ele não funciona com precisão. Lembrando que como Uber Driver nossa avaliação não pode ficar abaixo de 4.5 (de um total de CINCO). Caso isso ocorra, eles te proíbem de dirigir para eles.

Mas mesmo com todos os erros iniciais, na primeira noite fiz AU$ 200 em cinco horas de trabalho. Muito mais do que eu vinha ganhando como garçom. E assim foi durante meses. Um ótimo meio de ganhar dinheiro.

Porém, desde a legalização do serviço aqui em Sydney, em dezembro, o número de motoristas saltou de cinco mil para 25 mil e mais uma vez tive que me reinventar. Passei a dirigir em outros horários e mais vezes para garantir a mesma renda. Hoje em dia a maior vantagem não é mais a grana. A maior vantagem é não ter ninguém berrando no meu ouvido e ter a experiência de trabalhar 100% por conta própria pela primeira vez.

Falando em legalização, assim como em outros países, os serviços do Uber por aqui foram debatidos exaustivamente antes de serem legalizados. E não é que eu fui dos escolhidos e tive que estar do outro lado de uma entrevista e fui o personagem (motorista do Uber) escolhido para “debater” com o secretário de Transporte de NSW?  Ah, prazer. Aqui na Austrália, eu sou o Zac. E minha participação só vai até os 43 segundos do vídeo. 

Nesse período vi, presenciei cenas inusitadas dentro do meu carro. Dirigi para figuras cômicas e para gente muito bacana. Me emocionei, vi acidentes, fiz 275 bafômetros, sofri assédio feminino e masculino (resisti a ambos).

Top passageiros no meu Gugu

* Prego do Mel Gibson

* Travesti chinês de dois metros de altura

* Prostituta chinesa que perguntou por que eu não oferecia refrigerante no meu Uber

* Senhorzinho de uns 70 anos que foi tocando bateria imaginaria dentro do carro, no meio da madrugada e me disse não ter mais ninguém na vida. De uma alegria contagiante. Me emocionei com o coroa, mas tive que segurar a bronca. Ao fim da corrida pensei em dizer que seria cortesia, pois ele merecia. Mas tinha dado AU$ 110 e isso tornou impossível a graça.

* Dois caras que brigavam porque haviam dormido com a mesma menina. Mas a briga não era por causa DELA. Era porque o segundo a dormir com ela pegou uma doença sexualmente transmissível e achava uma sacanagem o primeiro não ter avisado nada.

– Agora até o Uber Driver sabe que estamos doentes – Disse enfurecido para o colega.

– Relaxa amigo. Entre os meus amigos essa doença ai que você está falando é quase uma gripe. De boa….eu disse rindo. – Eles riram

* Guri de seus 20 anos, estudante de ópera sem as duas pernas.

* Surdo mudo (duas vezes)

* Australiano gago que foi me guiando porque não sabia qual era o endereço. Mas sabia chegar. O problema é que até ele completar a oração eu já tinha passado da entrada/saída. Ai ele se emputecia, ficava mais gago, demorava mais para falar..enfim, quase não chegamos.

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Chegamos ao Futuro tão sonhado? #BackToTheFuture durante um dos outros empregos que tive aqui neste último ano – Fui por algumas semanas entregador de compras de uma das maiores redes de supermercados da Austrália

Futuro – Chegamos a um momento de decisões (aliás, aqui todo momento é de decisão). Nosso visto expira no final do ano. Se decidirmos ficar mais teremos que nos planejar financeiramente e ver qual melhor estratégia para seguirmos adiante. Diferentemente do que muitos brasileiros pensam, morar em outro País não é apenas sair do Brasil e “validar” o diploma. O buraco é muito, mas muito mais embaixo. Todos países possuem barreiras protecionistas para garantir emprego à sua população e a Austrália, apesar de ter um índice de desemprego inferior a 5%, não poderia ser diferente.

Ao menos, sabemos que isso está em nossas mãos. E você, o que acha? Acredita que é um bom momento para voltar para o Brasil ou não?

4 comentários em “Dois anos de Austrália

  1. Como sempre, belo texto, ótimas histórias.
    Apesar da enorme saudade que sinto de você, tenho de admitir que,
    no momento, o Brasil não oferece melhores oportunidades para ninguém.
    Infelizmente. Vivemos o caos dramático do desemprego, desorganização
    e mentiras que o PT, o Lula, a Dilma e os ladrões petistas instituíram.
    Os ladrões, mentirosos PeTralhas, mentem quando dizem que houve golpe.
    A incompetente Dilma foi defenestrada por ser péssima gestora e por ter-se
    beneficiado – e compactuado – com todos os roubos do PT.
    Mas, como sabemos, diz o ditado popular que
    “Não há mal que nunca se acabe”.
    E, felizmente, o grande MAL, o câncer do Brasil, o PT, desta vez, acabou. MORREU.
    Morreu por incompetência e roubalheira. Por enquanto, o Brasil está procurando
    se reencontrar com a honestidade e o progresso.
    ORDEM & PROGRESSO.
    Meu filho, que Deus lhe abençoe & proteja (idem para a Mônica).
    Paz, saúde, felicidade & prosperidade.
    Com Amor, Carinho, Afeto & Saudades,
    PAPAI.

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