O que vi e vivi em um ano na Austrália

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Chegou a hora e a ficha caiu quando olhei pra trás, vi meu quarto e tive que desligar a luz. Foi naquele momento que as lágrimas começaram a rolar e só pararam depois de uns 30 minutos dentro do avião rumo a Atlanta (EUA).

Afinal, estava deixando para trás o meu conforto, minha vida profissional, meus pais, minhas irmãs e meu sobrinho de dois anos. Sem falar na minha avó, minha afilhada, minhas tias/os, primas/os, nas amigas, nos colegas de trabalho e todas as pessoas queridas que conheço. Estava seguindo em direção a uma NOVA VIDA, do outro lado do mundo. E cá estou eu, um ano depois para relatar o que já aconteceu e os planos futuros.

O início

Há exatamente um ano, lá estava eu… acordando dentro do avião e olhando os primeiros raios do sol do mundo do dia 12 de agosto de 2014. Depois de passar quatros dias em Los Angeles e um voo de 13 horas vindo de lá, finalmente estava chegando ao meu destino. Conseguia ver Sydney lá embaixo das nuvens. “O que esta nova vida me reserva? Está chovendo… Será que o Zeca já acordou pra vir me buscar?”.

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Desci do avião e fui direto pra alfândega. A mulher solicitou a caderneta de vacinação contra febre amarela. Não entendi NADA. Só quando ela falou bem devagar e mostrou o papel que consegui compreender o que ela queria. “Que sotaque é este? Estou ferrada”, pensei. Fui ao banheiro me arrumar, escovar os dentes, passar perfume e crash! Derrubei o perfume. “Isso deve ser um bom sinal”. E foi. Um ano de baixos e altos que, com certeza, fez nascer (com clichê mesmo) uma nova Mônica Plaza.

Antes deste humilde blog, eu atualizava um Tumblr (plazamonica.tumblr.com) e lá eu relatei as dificuldades do início. Desde o jet lag cruel, que faz você ficar super acordada às 3h da madrugada e com muito sono às 17h, até a dificuldade de entender pra qual lado da rua olhar antes de atravessá-la. Me atrapalhei na rotina e não consegui atualizá-lo mais, infelizmente. Mas quem tiver interesse em ver alguns posts passados é só entrar lá. 😉

Uma nova rotina

Último dia de aula do preparatório do IELTS. Não fiz a prova até hoje. hehe
Último dia de aula do preparatório do IELTS. Não fiz a prova até hoje. hehe

Cheguei aqui com um visto de estudante de quatro meses. Decidi fazer o curso para a prova de proficiência da língua inglesa. Então eu ia pra aulinhas todos os dias de manhã. Como ainda não tinha emprego aqui, na minha primeira semana, já iniciei um trabalho de freelancer para o Brasil na minha área (que continuo até hoje). Por conta do fuso horário, tinha que voltar pra casa, dormir depois do almoço e às 17h acordar para trabalhar até às 2h da madrugada. Essa rotina foi bem cruel, porque eu só chegava atrasada nas aulas, não tinha tempo de conhecer a cidade e ficava cansada à noite. Mas tudo bem. Era tudo temporário e eu realmente precisava trabalhar para renovar o meu visto dois meses depois (renovamos até o final de 2016).

Eu e Zeca renovamos o nosso visto juntos e nesse tipo de visto só um do casal pode estudar. O outro pode estudar um período de três meses somente, mas pode trabalhar normalmente, de acordo com o visto do parceiro. No nosso caso, de estudante. Decidimos que o Zeca estudaria Marketing. Com isso, eu não precisava mais frequentar as aulinhas de inglês e comecei a busca por um emprego aqui. Como era final de novembro, fui atrás das famosas “functions”, os eventos.

Depois de duas semanas, consegui o primeiro “shift”, que foi pra gravar um comercial de site de apostas (nós mostramos aqui o comercial. Eu não apareci. Eu fui figurante da parte de corridas de cavalo, mas só as atrizes principais desse trecho apareceram). O que importa é que foi meu primeiro salário em dólar. Depois disso, trabalhei muito em dezembro, nos eventos de fim de ano. Trabalhei mais como garçonete em jantares e coquetéis.

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Passamos o primeiro Natal e Ano Novo longe da família, começamos janeiro com verão bombando, mas sem eventos pra trabalhar. Com o dinheiro ganho no final do ano sobrevivemos bem, até que…

Depressão?

Bom, falar dos momentos positivos é muito fácil, né? Mas nosso objetivo com este blog é também mostrar a realidade nua e crua de viver em outro país. Eu sempre tive esse sonho, pra aprender realmente outra língua, viver uma outra cultura e crescer pessoalmente. Sempre fui uma pessoa mais na minha, nunca fui de demonstrar meus sentimentos mais profundos, mesmo eu tendo consciência de que sou uma pessoa do bem (pelo menos tento ser ao máximo).

Entretanto, em nenhum dos meus sonhos de morar fora, eu imaginei que minha maior dificuldade e barreira seriam a S.A.U.D.A.D.E. Me virar com outra língua foi fácil, me acostumar com a nova cultura idem. Só que conviver sem a movimentação da minha casa, sem as centenas de pessoas do trabalho, sem a barulheira dos lanches da família aos domingos e sem o barulho das ruas do Taguacenter foi difícil, muito difícil. Foram muitas noites de choro, muitas tardes de domingo de choro. Até que com a dificuldade de arranjar emprego no fim de janeiro e início de fevereiro, eu caí numa gripe profunda, que me derrubou por uma semana e me fez perceber que eu precisava de ajuda, porque a minha vontade era que a gripe não acabasse pra eu ficar no meu quarto pra sempre. Não quis falar com ninguém no Brasil sobre isso pra não preocupar ninguém e guardei tudo pra mim.

Até que surtei numa sexta à noite. Não queria ficar sozinha, o medo da solidão bateu à porta, chorei compulsivamente, gritei, até que decidi que queria voltar pro Brasil. Mas eu descobri naquele momento que eu tava casada com a pessoa certa. O Zeca teve toda a paciência do mundo. Ele foi o companheiro e parceiro ideal, segurou a barra ao meu lado e me mostrou que eu poderia reverter a situação.

Além disso, tive horas e horas de conversa com uma das minhas melhores amigas do Brasil – a Ju Curi. Ela também teve paciência, parou tudo o que tava fazendo e percebeu a urgência do meu pedido de ajuda. Por uma semana, falava comigo todos os dias pra saber o que eu tava fazendo pra me levantar. E ela também foi meu anjo de guarda, mesmo de longe. Para muitos a depressão, ou o início dela (meu caso), é coisa de gente fresca. Mas não é. Deixo o adendo para lembrá-los que depressão é coisa séria e que precisa ser tratada como todas as doenças.

Mais um novo começo

No escritório da 100foxes
No escritório da 100foxes

Convencida de que as mudanças só dependiam de mim, fui atrás do meu objetivo de trabalhar na minha área aqui. Depois de quase um mês, consegui um estágio não-remunerado em uma empresa de site que ajuda homens a comprar presentes para mulheres. Quem mora fora e tem visto de estudante (que permite trabalhar só 20 horas semanais), sabe o quão difícil é ser aceito por uma empresa para trabalhar meio período. Então um estágio é a principal porta de entrada.

E aqui, até pra fazer esse tipo de estágio é preciso uma seleção rigorosa. Fiz uma entrevista pessoal por duas horas e eles ainda pediram o contato dos meus três últimos chefes do Brasil (mais uma vez, obrigada a todos eles pelo help). Consegui a vaga de Digital Marketing na “100foxes”. Durante dois meses, fiquei responsável pelos perfis nas redes sociais da empresa. Aqui essa área é bem nova, então muito conhecimento que eu tenho era totalmente “uau’” pra eles e eles gostaram muito do meu trabalho.

Entretanto, o estágio não era remunerado e o dinheiro do Brasil já não era suficiente para me sustentar. Afinal, o dólar americano tava quase chegando a R$3,00 e, consequentemente, o dólar australiano só subiu também. Então as functions começaram a aparecer de novo e, infelizmente, aconteciam na mesma hora do estágio. E daí tive que optar pelo $$$ e deixar de lado, temporariamente, o sonho da profissão por aqui. (Vale lembrar que Sydney é uma das cidades mais caras do mundo!)

Alegria de criança

Apesar de muita gente por aqui se sustentar só com function, pra mim, viver só disso não dá. É tudo muito incerto e você nunca sabe quando terá evento ou não. Eu precisava de algo fixo. Trabalhar em restaurante, café, loja de shopping, o quê? Nada disso me dava estímulo para procurar emprego. Até que nas buscas nos vários sites de classificados eu percebi o tanto que mães precisam de babás. E aí minha ficha caiu: “sim, eu vou ser nanny!”.

Pra ser nanny aqui, os pais exigem curso de primeiros-socorros e nada consta da Polícia Federal. Pois bem, fiz o curso em um domingo durante o dia todo e tirei o nada consta na segunda. Na terça, fiz meu currículo de nanny. Minhas experiências? Dei aula de reforço no Brasil e morava com meu sobrinho, né? Não menti em nada. Me cadastrei em um site famoso aqui chamado “We Need a Nanny”. Vi uma vaga perfeita: de segunda a quinta, começando ao meio-dia, a cinco minutos de ônibus da minha casa. Ou seja, poderia continuar com o trabalho do Brasil tranquila. Falei pro Zeca: “Se eu conseguir esse emprego, eu não reclamo de mais nada”. Fiz a entrevista no domingo seguinte e comecei o trabalho na segunda.

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Melhores momentos de nanny: 1) Os dias de sol nos parques; 2) viciado em super-heróis; 3) Meu presente de niver escolhido por ele – raspberry jelly; 4) passeio no zoo.

Ok, no primeiro dia eu bati o carro da família porque, sabem como é, né? Aqui dirigimos do outro lado do carro e aí no meio da chuva à noite, perdi o senso de espaço e bati a porta na quina de uma camionete parada. Hehe Mas a família entendeu e estou já há quatro meses com eles. Cuido de um garoto de três anos chamado Asher. Ele não pode ver TV durante a semana e não pode comer doces. Então é um desafio e tanto entretê-lo e ensiná-lo também. Ele tem aula de música às terças e yoga às quartas.

Mas o mais importante é que aprendo muito com ele. Ele é o meu melhor professor de inglês da vida. Ele é super esperto e adora super-heróis. Às vezes tem seus momentos de “Threenager”, como eles dizem aqui essa fase dos três anos. Mistura de Three com Teenager. Mas com certeza a alegria dele e o desafio de cuidar dele me fez levantar a cabeça e iniciar uma nova rotina que está me fazendo muito bem.

Hoje e amanhã

Hoje trabalho de nanny, como dito acima, e faço ainda algumas functions aos finais de semana, além do trabalho no Brasil. Meu objetivo atual é voltar a ter qualidade de vida. Engordei 10 quilos em um ano. Estava comendo muito errado e na época da tristeza, descontei muitos dos meus problemas nos doces. Sem falar no desânimo para ir à academia.

Tenho trabalhado muito em estádios de futebol, principalmente como
Tenho trabalhado muito em estádios, principalmente como “chef” de cozinha.

Hoje me consulto com uma nutricionista pra me reeducar. Não é dieta. Estou aprendendo a comer na Austrália. Farei um post sobre isso depois. Já perdi 3kg em três semanas, mas o mais importante é que estou voltando a ter pique e disposição pra ir à academia todos os dias. Sem falar que aprendi a cozinhar de verdade (olha a nova Mônica aí) e descobri que quero ter mais uma nova profissão. Estou estudando a possibilidade de iniciar uma trajetória na Nutrição.

Ainda tenho muitos objetivos a serem alcançados aqui na Austrália, mas com certeza tudo o que já vivi por aqui me fez chegar a três conclusões: devemos deixar a preguiça, o comodismo e o medo de lado e dar um novo rumo à vida quando sentimos necessidade; que todos são capazes de ser felizes mesmo não correspondendo a uma expectativa imposta pela sociedade; e a principal: nada é mais importante do que as pessoas que amamos.

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3 comentários em “O que vi e vivi em um ano na Austrália

  1. Parabéns pela sua história de vidas e por ressaltar a parte de altos e baixos. Muitas vezes as pessoas passam por muitas dificuldades até chegaram a vitória e você contou cada detalhe de duas experiências. Admiro muitas mulheres como você. Sorte sempre na vida.

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