Quais trabalhos te esperam na Austrália?

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Por Zeca Moreira

Morar fora é caro. Principalmente se você está juntando dinheiro em real para depois gastar em dólar ou euro. Gasta-se em média, ao menos aqui em uma das cidades mais caras do mundo, cerca de 400 dólares por semana. Isso numa conta rasa e para uma vida sem luxo algum. Multiplique pelo valor do real hoje e verá que não trabalhar em Sydney é opção para poucos privilegiados.

A famigerada matemática citada acima mais a desvalorização do real me fizeram procurar trabalho desde o começo. No segundo dia em Sydney já tinha providenciado toda a papelada para procurar emprego de barman ou garçom (eles exigem alguns cursos). Conversei com dois amigos que moram aqui há mais de 10 anos e eles me sugeriram bater de porta em porta. Segundo eles, logo estaria empregado. Afinal, assim tinha funcionado com eles.

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Uma das licenças para trabalhar em Sydney. Esta permite trabalhar com bebidas alcóolicas.

Como cheguei à Austrália sem grandes informações, optei por vir na época na qual a passagem aérea era mais barata. E a época mais barata é qual? Acertou o gênio que respondeu na baixa estação. Botei meus pés em solo australiano na primeira semana de inverno. Sydney é uma cidade praiana. Os bares estavam demitindo e diminuindo seu horário de funcionamento. Contratar gente nova estava fora de cogitação. Foram 6 semanas batendo com a porta na cara. Mais precisamente 75 currículos entregues, fora as centenas de tentativas diárias pela internet.

Aliás, por meio dessas tentativas pela internet em sites de emprego, me meti em algumas “frias”. Fui a algumas entrevistas aonde o candidato seria selecionado para fazer o marketing da empresa. O nome pomposo nada mais é do que uma forma de levar o candidato até o escritório de recrutamento para que ele saia de lá convencido a bater de porta em porta vendendo “tapware” e produtos da mesma utilidade.

“Well, depends on you now”

Numa dessas peguei dois trens em um sábado de manhã, cada um com viagem superior a 30 minutos, fora o tempo de espera nas estações. Cheguei a um bairro libanês diferente de tudo que havia visto em Sydney. Logo senti que estava em uma das frias proporcionadas pela internet. Como já estava lá (tinha passado até perfume), resolvi ir até o final para ver do que se tratava.

Era um escritório onde funcionava um site, recém-inaugurado, que revolucionaria o mercado de busca de empregos. Ao invés de preencher longos cadastros online, bastaria fazer um vídeo e as oportunidades cairiam no colo do candidato. Gravei um vídeo mequetrefe, com um inglês no mesmo nível, e que mesmo com muito sentimento de vergonha alheia, você pode acompanhar logo abaixo.

Bem, como era de se esperar desse vídeo, a única coisa que ganhei foi bullying (merecido, vamos combinar) e a ideia para o nome do nosso site (Depends on You está certo, mas os estrangeiros utilizam a expressão It’s Up To You para dizer Depende de Você).

Dias de recusas

Na minha quinta semana, ainda desempregado e com o dinheiro no fim, fui entregar currículos na Oxford Street, tradicional rua GLS de Sydney. Comentei com minha mulher e ela riu (ela ainda estava no Brasil). Meu irmão riu mais ainda. Mas eu não achei muita graça em ter mais um dia de recusas. Quando percebi, estava titubeante em frente a uma boate GLS onde se lia logo na entrada, em letras garrafais: HOJE NU TOTAL E FRONTAL. Deixei de titubear naquele momento. Dei meia volta para casa. Estava arrasado. Absolutamente nada estava dando certo.

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Vai encarar?

Na época estava, há mais de 20 dias, dormindo de favor na casa de um grande amigo que enfrentava um processo de divórcio. Me dirigi ao “meu” quarto nos fundos, pois a sala pequena não era o melhor lugar para um casal em meio a separação e um estorvo vindo do outro lado do mundo. No caso o estorvo era eu. Deitei pensativo no colchão inflável que meu amigo tinha comprado para mim (eu não tinha grana). Era frio. Não mais que 10°C e queria apenas descansar, Já estava com a roupa de dormir e senti um barulho de ar. O colchão havia furado. Aos poucos foi esvaziando e em alguns minutos eu estava deitado no chão. Me recusei a levantar ou fazer qualquer coisa. Era hora de ignorar as adversidades. Dormi com a chuva lá fora e com as costas no chão duro.

Acordei puto. Fui para aula, procurei emprego pela web, mas não entreguei currículos pela cidade (tinha deixado os últimos na rua GLS. Aquela do nu frontal). À noite sai para conversar com o amigo que me dava morada. Graças a Deus ele pagou umas cervejas para me animar, pois viu que as coisas não estavam boas. Provavelmente enxergou em mim um espelho dele mesmo 10 anos antes.

Finalmente, o primeiro job

Meu amigo sugeriu que eu começasse a procurar emprego nas obras. Segui o conselho e dessa vez tive mais êxito. Procurei uma agência de empregos, providenciei os documentos necessários para trabalhar de pedreiro e em uma semana estava de pé às 03 da manhã, sob 7°C (isso sem falar na sensação térmica bem abaixo disso por conta do vento forte) para meu primeiro dia de trabalho em terras australianas.

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Novato na obra

Fui trabalhar feliz da vida. Foram oito horas de batente. Tivemos uma pausa de 15 minutos para o almoço. Almoço que não tive. Esqueci de levar minha comida e quando comentei com os outros pedreiros (que aqui eles chamam de labour) eles fizeram que não era com eles. Peguei metade de uma banana que jogaram no lixo e enchi o bucho com água da torneira para enganar a imensa fome proporcionada pelo jejum associada ao trabalho braçal. Cortei e carreguei imensas barras de ferro da base do prédio para seu topo. Usei serras elétricas que nunca tinha manuseado na vida. Serras que com um deslize te deixam sem um braço, perna ou qualquer coisa que estejam no caminho. Se eu fiquei triste? Nem um pouco. Voltei para casa feliz da vida com 150 dólares no bolso. Mais importante que o dinheiro foi a certeza que as coisas seriam diferentes daquele momento em diante.

Nova rotina

Depois de muito tempo, enfim estava “empregado”. Durante quatro semanas trabalhei em obras. Sempre de maneira ocasional. Precisavam de mim e lá estava eu. O dinheiro me ajudou a dar os primeiros passos em Sydney e, enfim, deixar de morar de favor. Entretanto, em momento algum trabalhar em obra tinha sido meu foco. Continuei a procurar e um professor da escola me ajudou a arrumar o primeiro emprego fixo. Era de ajudante de cozinheiro (kitchen hand). O salário era uma miséria. Dava menos de AU$ 200 por 3 dias de trabalho. Mas era prazeroso e num lugar bacana. Aceitei para pegar experiência.

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Não é só marinheiro que descasca batata

Alguns dias depois, arrumei um segundo emprego fixo e que tenho até hoje. O emprego não é dos mais convencionais em Sydney. Digamos que sou uma espécie de “marido de aluguel” em uma empresa de share accommodation. De segunda a quinta-feira troco desde lâmpadas até máquinas de lavar em residências que recebem estudantes de todas as partes do mundo.

O emprego no primeiro restaurante, aquele que pagava miséria, durou somente dois meses, mas associado ao trabalho na empresa de share accommodation ajudava a pagar as contas. Saí e passei a lavar panelas em um restaurante as sextas e sábados. Fazia isso nos dias de folga no emprego de “marido de aluguel”. O salário era melhor. O dinheiro, enfim, começava a entrar.

Em outubro de 2014, passei a usar os finais de semana para trabalhar em grandes festivais e jantares de gala. Larguei as panelas para trás. Era começo do alto verão australiano, época de trabalhar muito e fazer o pé de meia para o inverno. Foram três meses trabalhando de manhã até a madrugada. Cheguei a ficar cerca de 25 dias sem folga. Eu já sabia que em janeiro e fevereiro não haveria um fim de semana que fosse com trabalho nessas empresas. Muita gente aproveita para viajar e conhecer a Ásia nesse período.

Antônio Alves, o Taxista

Eu tinha outro plano. Juntei todo dinheiro e comprei um carro grande. Passaria janeiro e fevereiro buscando e levando mochileiros para o aeroporto. Afinal, nessa época eles chegam e vão a todo instante.  A grana não chegava nem perto da que ganhava nos festivais ou jantares, mas complementava a renda.

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Após 12 meses e diversos trabalhos diferentes, posso dizer, sem sombra de dúvidas, que o mais difícil é o primeiro passo, o pontapé inicial. Depois disso as coisas fluem, pois você aprende os atalhos e todo aquele sacrifício do início começa a fazer ainda mais sentido. Adiante voltarei para contar algumas histórias que me ocorreram enquanto fui figurante em um filme de Hollywood, ator de comercial, lavador de panela, cortador de cebola, gari (isso mesmo), garçom em mansões e cozinheiro em estádios de rugby. Até lá.

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